Pensei que, às vezes, me alimento
de corações. Depois, percebi que talvez fossem os corações que me alimentam. Mas, por fim, cheguei à conclusão de que
nenhuma destas opções podia estar absolutamente correcta. Não me alimento de
corações. Se me alimentasse apenas deles, eles nem sequer podiam ter uma
palavra a dizer sobre isso. Simplesmente, tal como bonecos, limitar-se-iam a
obedecer-me. Também não são só os corações que me alimentam, pois isso poderia
querer dizer que não decido se quero ser alimentada por eles. Era como uma
violação das papilas gustativas, como uma obrigação em comer um alimento de que
não gostamos ou que não queremos comer em determinado momento. Algum tempo
depois cheguei à conclusão de que, com toda a certeza, sou alimentada por um
coração que alimento. Não me importo que ele me alimente o dia todo. Não tenho
medo de engordar com ele, nem tão pouco de me viciar no sabor. Enjoar não é
sequer uma probabilidade. Mas também não me importo de o alimentar, com
beijinhos, o alimento preferido do coração. Ele quer. Ele pede-me esses
beijinhos. E ele também não se importa de ficar gordinho de pequenos
beijinhos-corações.
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